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terça-feira, 30 de agosto de 2011

LIDERANÇAS FEMININAS E POLÍTICAS PÚBLICAS


Betânia Diniz Gonçalves. Doutora em Psicologia Social. Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo,  Brasil.
betaniadg@pucminas.br.
Recibido: 05 / 02 / 2007
Aceptado: 31 / 05 / 2007
Vol. 7 • N° 1 • Enero - Junio 2007 • ISSN 1317-5904 • Universidad de Los Andes • pp 67-83.


Participação política de líderes femininas: uma análise psicopolítica.
                                                                                                  

Ainda hoje – início do século XXI -, no Brasil e em diversas partes do mundo, é pequena a participação política de Mulheres nas esferas decisórias. Pouco se sabe sobre lideranças femininas e a atuação das mulheres nas diversas instâncias de poder. Pesquisar acerca do entrelaçamento das questões de  gênero/política/liderança/ identidade se constitui uma importante contribuição para se ampliar o conhecimento e o registro sobre a participação de lideranças femininas.
Além de apontar outros aspectos ainda a serem pesquisados sobre este universo, bem como estratégias a serem desenvolvidas para a ampliação da participação política das mulheres. Aspecto de grande relevância é a consciência que homens e mulheres têm que alcançar sobre o diferencial existente em ações que são desenvolvidas por ambos, o que exige a educação de todos para a construção de espaços de participação para mulheres. É importante que pesquisas e intervenções atinjam homens e mulheres.
A partir da segunda metade do século XX verifica-se uma crescente visibilidade das mulheres na agenda política internacional, tal fato constitui-se em importante fenômeno e considerável conquista. No decorrer dos anos, ocorreu um aumento da presença feminina tanto em política partidária, em cargos de lideranças  empresariais, quanto em movimentos sociais. A reivindicação das mulheres por um espaço próprio na estrutura de poder acarreta um redimensionamento de sua atuação, ou seja, à medida que as mulheres se tornam sujeitos, são capazes de se posicionar de maneira diferente e se redefinir.
Em relação à participação política, homens e mulheres não ocupam posições simétricas, do mesmo modo que os conteúdos politizados por um e por outro não são os mesmos. Ao longo da história muitas das reivindicações das mulheres não foram consideradas. A dinâmica da atividade política, práticas e  funcionamento de partidos, linguagens e valores políticos reconhecidos são feitos, com freqüência, baseados em modelos masculinos: presença de alto grau de violência verbal, valorização da competitividade em detrimento de cooperação, presença de alto nível de hiperatividade não criativa, alto grau de renúncia à intimidade e ao cotidiano. Muitas vezes se supõe que o espaço público e a vida política são próprios dos homens, enquanto que as mulheres são destinadas como proprietárias e gestoras do espaço privado  Lideranças femininas que exercem o poder de forma eficaz contribuem para a desconstrução de estereótipos negativos relativos ao exercício de poder pelas mulheres. Contudo, lideranças femininas que fracassam no exercício do poder contribuem para reforçar tais estereótipos.
No caso das mulheres muitos são os fatores que dificultam sua participação política, por exemplo: educação sexista; a sua socialização política que não as motivam a se candidatar para cargos políticos; ambivalência  feminina acerca do êxito; a não distribuição de tarefas domésticas com o parceiro; falta de políticas públicas que atendam às necessidades das mulheres; uma divisão social de trabalho que as reafirmam como  reprodutoras e cuidadoras; a sistemática exclusão da esfera pública que as colocam no âmbito do privado e, consequentemente, limita a sua participação na esfera política e em âmbitos de tomada de decisões. Mecanismos de ação positiva possibilitam o enriquecimento de debates públicos e de processos políticos, a promoção de desenvolvimentos de modelos de papéis sociais desejáveis, a desconstrução de estereótipos negativos, o respeito às diversidades e o alívio das tensões entre os sexos. A paridade se faz necessária em órgãos políticos, pois cidadãos homens e mulheres querem ver representados seus interesses políticos e sociais. A incorporação de mulheres na esfera de decisões contribui para uma representação mais genuína da
diversidade da sociedade e de uma maior quantidade de interesses.
A atuação política de uma liderança feminina e a forma como é valorizada por seus contemporâneos repercute sobre outras mulheres no nível político e em funções sociais. Mulheres que ocupam cargos de liderança precisam desenvolver estratégias que lhes possibilitam superar ou burlar as restrições,  manipulando estereótipos tradicionais para desarmar os oponentes. Apesar de todas as restrições sociais, o êxito das mulheres como liderança política não é um fenômeno novo e há mulheres que exercem esta função com grande influência. A obtenção de poder por parte das mulheres desafia as definições de gênero existentes e aumenta sua visibilidade política. Deparar com a eleição de mulheres para o exercício de lideranças públicas é sinal de mudanças sociais no contexto no qual elas se inserem. A verificação do impacto dessas mulheres sobre os diversos aspectos do sistema político, permite examinar quais os pontos estão institucionalizados e se mantêm constantes, e quais aspectos variam em função da identidade do representante, ou seja, o que varia a partir da eleição de um homem ou uma mulher.
As restrições à participação vividas pelas mulheres em alguns âmbitos sociais e políticos não as imobilizam, mas as despertam para criar outras formas de participação. A expansão da participação política entre mulheres é uma conquista que demandará muito tempo, mas o processo já está em curso. A diferença da participação das mulheres na política se dá à medida que somam suas experiências e perspectivas às dos homens, acrescentando temáticas a serem tratadas no campo político. O diálogo entre homens e mulheres e a possibilidade do trabalho conjunto entre os dois sexos são diferenciais para a cena política se se considerarem a necessidade de ambos, descartando a idéia de interesses universais que visam ocultar a dominação política.
Para a realização deste trabalho pesquisei a vida de algumas mulheres e suas diversas formas de participação sociopolítica, e verifiquei por meio da percepção que estas mulheres têm de si mesmas e de sua atuação social e política, a interferência desta participação em sua vida privada, pública e na construção de suas identidades. Utilizei entrevistas semi-estruturadas, do tipo “história de vida” para abordar 19 mulheres, sendo 06 com experiência de participação política partidária, 06 em cargos de lideranças empresariais e 07 líderes comunitárias. Ouvi, pessoalmente, cada uma. E, respeitadas as diversidades de estilos, cada mulher refez seu percurso, relembrando dos fatos, ressignificando as experiências; autorizando-me a “percorrer” seu caminho. As entrevistas foram gravadas, literalmente transcritas e submetidas a uma análise de conteúdo. Como categorias teóricas para análise desta pesquisa utilizam os conceitos: sujeito, construção social do self, identidade, Consciência e participação política, e tomo por referência as abordagens de Morin (1994), Badiou (1994, 1995), Mead (1993), Ciampa (1987, 1991), Castells (2003), Sandoval (1989, 1994, 2001), além de vários outros autores no trabalho da revisão bibliográfica.
Na análise comparativa das experiências dos grupos pesquisados, o primeiro ponto a ser apresentado é o tipo de espaço público em que cada um se insere, e qual a instância de poder que cada grupo participa e interfere. Em relação às líderes comunitárias, pode-se considerar que seu poder se dá em meio às experiências de solidariedade, pois à medida que interferem, positivamente, em relação às necessidades da comunidade, são reconhecidas como líderes, lhes sendo delegado o poder de decisão em instâncias como o Orçamento Participativo, comissões de saúde, colegiado da escola etc. Para as líderes empresariais, o poder está ligado ao capital, pois o acesso a ele garante a participação em instâncias de decisão no interior das empresas que integram, bem como em espaços políticos relacionados às organizações profissionais às quais pertencem.
Para as líderes em política, o poder está ligado à burocracia do Estado: são eleitas para as funções políticas, via a burocracia do Estado, legislam;
2
Lideranças femininas e inserção em espaço público e participam de decisões políticas. Verifica-se que o poder está em todo lugar (Foucault, 1997). Entretanto, dependendo do lugar e forma em que esse poder se expressa, os limites serão maiores ou menores. Com certeza, o poder aliado ao capital amplia o espaço de intervenção e influência.
Em cada um desses espaços de poder (comunidade, empresa, burocracia do Estado), o desempenho das mulheres se dá de forma diferenciada e precisam lidar com os limites e as benesses de suas ações. Fator comum relativo ao desempenho das mulheres diz respeito ao processo que desencadeia o exercício da liderança. É necessário, inicialmente, o reconhecimento social endereçado a elas, pois, à proporção que os outros as autorizam para o exercício de liderança, esse poder é exercido e, de fato, reconhecido por elas mesmas e por grupos sociais.
Mesmo reconhecidas e nomeadas como líderes e respondendo a estas nomeações, líderes comunitárias apontam que seu fazer não é político, e sim, ação de cunho voluntário. As empresárias reconhecem o valor político de suas ações e acreditam que, quanto maior o capital gerido pela mulher, mais espaço em instâncias da política ela terá. Em relação às líderes em política, não se argumenta se o seu fazer é político, mas se a qualidade do fazer em política terá caráter mais assistencialista ou não, conforme a formação e inserção partidária da mulher. Há aquelas que exercem poder em política local e respondem de forma assistencialista às demandas do povo. Outras se envolvem em instâncias federais e na cúpula do partido no qual atuam. Sandoval (1994) afirma que mesmo se o processo de estruturação da consciência apresentar caráter político, isto não garante que o sujeito seja politizado. Mas, mesmo assim, pode-se falar em  consciência política, pois há a realização de ações politizadas desses sujeitos, apesar de não terem consciência de tal dimensão. Certifica-se que as mulheres pesquisadas, independente do grupo a que pertençam, expressam diferentes níveis de consciência política, como: Consciência de Senso Comum, Consciência Populista, Consciência de Conflito (Sandoval, 1994). E o nível de consciência política se relaciona diretamente à ação desenvolvida pela liderança e vice-versa. Deve-se considerar também a história de vida e a formação profissional (grau de instrução) de cada mulher, pois verifica-se uma relação estreita entre estas variantes e o tipo de consciência e participação política de fato realizado pelas mulheres. Aquelas procedentes de níveis.
3.
Consciência e participação política: pontos de vista socioeconômicos baixos e que não tiveram acesso à educação formal tendem a reproduzir ações assistencialistas, limitam sua prática política no âmbito local e não ocupam cargos de liderança no partido, tampouco no parlamento. Entretanto, mulheres de níveis  socioeconômicos baixos, que tiveram acesso à educação formal, são mais respeitadas dentro dos partidos, ocupam cargos de liderança no parlamento e propõem ações com caráter não-assistencial em sua prática política. De fato, a educação formal é um importante aspecto para o desenvolvimento da consciência dos sujeitos. Avelar (2001) afirma que as formas mais comuns de participação entre mulheres se relacionam às ações coletivas em defesa de bens comuns, por exemplo: escolas, saúde, ações em movimentos sociais.
Outra possibilidade é por meio de associativismo em organizações econômicas e profissionais: órgãos de classe, órgãos comunitários etc.  Destaca ainda que estas participações as socializam para a inserção na política formal. A afirmação de Avelar pode ser constatada a partirdos três grupos pesquisados (líderes comunitárias, empresárias e em política partidária). Analisando a motivação e o tipo de ações em que as mulheres se inserem politicamente, verifica-se que em relação às líderes comunitárias suas ações acontecem em instituições como escola e saúde, além dos trabalhos reivindicativos em associações comunitárias, no âmbito dos movimentos sociais. As empresárias se associam em órgãos de classe e a partir deles realizam suas ações. As associações das mulheres às ações comunitárias e em órgãos de classe as fazem romper com a espontaneidade e rotina da vida cotidiana, as introduzindo na reflexibilidade como sujeita. É a interrupção da estabilidade da vida rotineira no trabalho, na vizinhança e nas instituições que aciona a mudança na consciência do sujeito (Heller,1989; Sandoval, 1994). Entre líderes em política encontram-se mulheres provenientes de movimentos sociais e de órgãos de classe.
Sandoval (1989) ressalta fatores psicossociológicos que impulsionam as pessoas a participar de mobilizações sociais: a) demarcadores de fronteiras sociais e geográficas da comunidade; b) que contribuem para solidariedade entre os membros da coletividade: categorias sociais e redes sociais; c) relacionados à vida organizativa: combinação de categorias sociais com redes sociais – quanto mais extensiva e intensiva as organizações, maior a organização do grupo; d) o repertório de ações coletivas: acervo de experiências em mobilizar recursos e agir;
4.
Motivação para participação política das mulherescoletivamente e o valor atribuído a essas experiências. Estes fatores podem ser confirmados nas experiências das pesquisadas. Importante característica no desenvolvimento do trabalho destas mulheres é a realização de ações em grupos, que se diferenciam conforme o segmento estudado, ou seja, as líderes comunitárias trabalham com o grupo comunitário conforme localização da associação que coordena dentro do aglomerado, mas entre elas não estabelecem vínculos para o exercício de trabalhos comuns. As empresárias procuram se articular entre si, desenvolvem tarefas comuns, participam de órgãos profissionais e incluem outras empresárias em processos de formação. As líderes em política trabalham com representantes de diversos segmentos sociais e grupos comunitários, que constituem a base de seu mandato, se articulam entre si para votação de projetos de forma  suprapartidária.
Nos três grupos, verifica-se grande diferença de idade entre as mulheres pesquisadas. O pertencimento a determinada geração (mais jovem ou mais velha) associado às questões socioeconômicas e recursos subjetivos interferem na motivação para inserção política das mulheres, tanto quanto nas oportunidades e expressão pública de cada uma. As motivações para o exercício da liderança são diversas, podendo ser desde a privação de bens e serviços vivida, a experiência religiosa e conquistas comunitárias até visibilidade no mercado e reconhecimento público. Fatores relativos à solidariedade e demarcadores de fronteiras socioeconômicas interferem mais na motivação para ação das líderes comunitárias e das mulheres na política. Para as empresárias e líderes em  política, fatores relativos a gênero representam motivação importante de participação e produzem grande investimento por parte delas.
As diversas trajetórias vivenciadas pelas mulheres possibilitam afirmar que, em seus processos de  socialização política, as inserções no âmbito de movimentos sociais e em órgãos de classe as preparam para
o desempenho de cargos políticos. Entre as entrevistadas, não encontrei mulheres que se inseriram diretamente na política partidária, antes da inserção partidária, há outros percursos.
5.
Participação política e geração: algumas trajetórias
Os impactos vivenciados pelas mulheres para o exercício de suas ações políticas se apresentam em forma de limites, preconceitos e dificuldades, mas podem ser definidos por outro lado como oportunidades de crescimento e de mudança de lugar social. Limite comum aos três grupos pesquisados se relaciona às questões de gênero. Há muito que ser transformado na sociedade para que o fato “mulheres em cargos de comando” seja considerado “comum”. Percebe-se um avanço, mas, nos três grupos pesquisados (comunidade, empresa, burocracia política), foram apontadas situações de estranhamento diante do cargo que as mulheres exerciam. Preconceito que se intensifica se essa mulher for considerada velha. Nos conflitos, discussões e embates travados entre homens e mulheres nos diversos campos de ações, quando os argumentos não se sustentam, apontam questões relativas ao gênero. Nestas situações, há agressões endereçadas às mulheres, não apenas pelo fato de discordarem da posição do político, mas por serem mulheres.
Outro aspecto apresentado pelas entrevistadas que retrata dificuldade para o exercício de liderança diz respeito à competência para o trabalho. Não basta que as mulheres sejam competentes e habilitadas para a tarefa para a qual se dispõem. Segundo relatos, precisam ser mais competentes do que os homens para conquistarem o espaço que almejam. De acordo com as entrevistadas, a freqüência com que as mulheres adoecem e o gasto de energia com relações afetivas dificultam as promoções e avanços.
Entretanto, há situações de limites que se colocam porque as mulheres não estão preparadas, tecnicamente, para o exercício de determinadas funções. Como exemplo, podem ser citadas líderes  comunitárias que não sabem ler e escrever, e líderes em política que não sabem redigir sequer um memorando, líderes empresariais que são extremamente autoritárias.
Este despreparo é associado, muitas vezes, ao fato de serem mulheres e não à falta de informação adequada, independente de serem ou não mulheres. Situações como essas, relativas aos preconceitos de gênero, não lhes amedrontam, mas lhes confirma a necessidade de se preparem para as funções de liderança, assim como a urgência de serem agentes de instrumentalização de outras mulheres, pois só assim se ampliarão as oportunidades de participação política. Então, visando minimizar algumas desigualdades de oportunidades para outras mulheres, as que estão no exercício político promovem debates relativos ao tema participação e inserção política de mulheres; produzem cartilhas; elegem temas suprapartidários e votam como “Bancada Feminina”; promovem cursos no âmbito das associações profissionais;
6.
Impactos da participação política: limites e oportunidades instâncias profissionais, que restringem votos e decisões às mulheres, mas aceitam a participação masculina. Reconhecem que precisam ter os homens como parceiros e que não basta elegerem mulheres, mas estes homens e mulheres precisam ter consciência feminista (Avelar, 2001). Esse percurso se dá em meio a conflitos e ambigüidades masculinas e femininas. Há que se valorizar a participação conjunta de homens e mulheres para que se possa extrair daí o positivo permitido pela diferença. É fato que mulheres politizam novos temas, ou seja, reconhecem necessidades antes não consideradas ou representadas pelos homens no espaço político (Avelar, 2001). Entretanto a ampliação e democratização de novos temas dependerão do crescimento da consciência de ambos (homens e mulheres) para que prioridades reais sejam encaminhadas e resolvidas politicamente. Esse crescimento conjunto supõe a incorporação de valores masculinos e femininos, próprios da socialização de cada um, no âmbito da política. Segundo as entrevistadas, as mulheres introduzem valores como diálogo, capacidade de escuta, responsabilidade por causas sociais, dividem espaço de decisão e poder, coragem, determinação em
seus projetos, se corrompem menos. E em relação aos valores expressos pelos homens, verifica-se a  objetividade, racionalidade, organização. Entretanto, estes valores femininos e masculinos não se associam somente ao sexo: homens assimilam e expressam valores considerados femininos, e mulheres, da mesma forma, se posicionam e se expressam utilizando valores masculinos. Em relação ao que definem como crescimento e oportunidade, as mulheres dos três grupos pesquisados, apontam mudanças: na qualidade de vida, com a incorporação de benefícios conquistados; de posicionamentos em espaços públicos e privados; reconhecimento público e visibilidade social diferenciada estendem suas relações e horizontes; e o mais importante é o fato de se tornarem sujeitos de suas vidas e suas histórias, interferindo, igualmente, na história da sociedade. O sujeito representa uma combinação de ação e intenção que se manifesta de forma inseparável em relação às suas experiências e contexto social, integrando experiências subjetivas e sociais em relação complexa e movimento constante (Badiou, 1994,1995; Morin, 1994).
As conquistas das mulheres interferem em suas relações pessoais, ora trazendo-lhes benefícios, ora  dificultando as relações afetivas e familiares. Para os grupos pesquisados, os momentos de ausência das mulheres no âmbito familiar, exigidos pelos compromissos relativos ao trabalho, precisam ser negociados com os filhos e com os companheiros. As mulheres afirmam que é mais fácil negociar com os filhos. A relação homem-mulher ainda tem que crescer muito; as negociações são difíceis e os companheiros não suportam as exigências de viverem com uma mulher que desempenha o papel de liderança e, freqüentemente,
se separam. Outras vezes, se a mulher não tem um companheiro em casa, ela utiliza esse espaço para o desenvolvimento de atividades sociais. Ter ou não companheiro no âmbito doméstico influi nos limites
do envolvimento político das mulheres. A maternidade é considerada uma importante função pelas mulheres. O cuidado com os filhos é compromisso primordial, que se estende aos filhos dos filhos. É importante frisar que para ocorrerem mudanças na vida das mulheres, é preciso haver grande investimento de cada uma. Crescimentos e oportunidades só se concretizam à medida que há grande empenho pessoal. De maneira geral, pode-se dizer que todas as entrevistadas – líderes comunitárias, líderes empresariais e as líderes em política – não aceitaram seus “destinos sociais” (pré-determinações) expandiram suas oportunidades, habilidades e competências. Inseriram-se nas diversas instâncias públicas; e desenvolveram potenciais que,
estavam ocultos em suas vidas.
É inegável que a participação das mulheres em instâncias de poder interfere na construção de novas identidades. No conjunto de diversas experiências e resistências, as mulheres constroem suas identidades. Os processos vividos se diferenciam conforme a história de vida e as oportunidades que cada uma pode ter no decorrer da vida. Entretanto, há transformações e crescimentos significativos em suas experiências, mesmo apontados as diversidades (geração, nível socioeconômico, escolaridade etc). Cada pessoa expressa em sua
conduta a sociedade em que vive, mas o faz de modo particular, ou seja, o indivíduo continuamente reflete a sociedade ao mesmo tempo que se expressa. A pessoa, em sua combinação de “eu” e “mim”, se constrói em
relação com o meio social (Mead, 1993).
As diferenças de nível socioeconômico e de oportunidades constatadas entre as entrevistadas não se sobressaem quando a discussão aponta para as alterações em suas identidades/subjetividades, pois há,
em relação a este aspecto, algo comum aos três grupos. Verifica-se, na experiência das mulheres, o processo descrito por Mead (1993): o “eu” se torna consciente do “self”, integrados na pessoa mediante a ação social,
ou seja, a internalização das experiências (self ) possibilita a autonomia, a formação do “eu”; e, afirmo ainda, que a internalização das experiências possibilita o processo de desenvolvimento de novas identidades.
As líderes comunitárias, as líderes empresariais, as líderes em política ampliam suas relações sociais, se inserem em várias redes de trabalho, alcançam benefícios de ordem material1 e, mais do que isso, redefinem suas identidades no tocante a aspectos profissionais e pessoais. Aumentam conhecimentos; alcançam visibilidade pública e se desinibem nesses ambientes; se valorizam mais; reconhecem suas habilidades e competências; e à medida que enfrentam dificuldades pessoais e sociais, se preparam para novos desafios e conquistas, além de abrirem espaços para as novas gerações de mulheres. Mecanismos de exercício de poder apreendidos no domínio privado pelas mulheres são adaptados à esfera política/pública. Repetem atitudes do espaço privado no espaço público, porém o sentido dado é outro.
A expressão das emoções (chorar) em espaço público é exemplo. No domínio privado, o choro é, muitas vezes, expresso por quem se sente vítima. No âmbito público, se torna “arma política” (um recurso) das mulheres que desarma o outro. Conscientes de que os homens têm dificuldades para lidar com emoções, principalmente em espaços públicos, usam dessa “arma’ e, muitas vezes, alcançam os objetivos almejados. As negociações que as mulheres aprenderam a fazer no espaço privado são levadas ao espaço público. Dão qualidade ao diálogo com seus pares no parlamento, nas associações, nas gerencias de empresas e nas discussões públicas e, assim, humanizam os espaços de poder.
Por outro lado, levam para o espaço privado o que apreenderam   no espaço público, retornando a ele com posições e idéias próprias. Politizam questões antes consideradas privadas; abrem espaços no contexto familiar para que os homens participem da criação dos filhos e afazeres domésticos. Verifica-se que decisão como esta se dá em meio à ambigüidade das mulheres e dos homens, mas é fato. À medida que se afastam da casa para a realização de suas atividades como liderança, elas têm que contar com outras mulheres da rede familiar (mãe, empregadas, sogras) e com os parceiros para resolverem as questões relativas à casa e aos filhos, mesmo que busquem se inteirar das questões via telefone. Vivenciam novas experiências, novos valores, se transformam e redefinem suas identidades. As mulheres mais jovens dos três grupos reconhecem que ainda poderão fazer muito e crescerem mais. As mais velhas não se dispõem a parar, mas se reorganizam em suas atividades; reconhecem sua importância nos espaços em que atuam e desejam que as mais jovens tenham mais oportunidades do que elas tiveram. Para isso, reafirmam a importância de realização de mais estudos acerca de lideranças femininas em instâncias de poder, para que assim seja possível promover a educação das mulheres para a participação política. Conforme atesta Araújo (2001), não existe, por parte de dirigentes políticos, a recusa à participação política das mulheres. O problema é anterior, pois não há grande contingente de mulheres dispostas a concorrer a cargos políticos.
As trajetórias das mulheres aliadas às condições nas quais a política institucional e a competição eleitoral operam no Brasil não oferecem às mulheres condições que lhes sejam animadoras. Ao término deste estudo teórico e pesquisa de campo, podes e  afirmar que as motivações para que as mulheres se envolvam em
cargos de liderança política são diversas, podendo variar de motivação religiosa até a ampliação da consciência política, passando por busca de objetivos pessoais ou resolução de problemas coletivos. As suas
trajetórias de vida, envolvimentos pessoais e profissionais as colocam em situações que as preparam para o exercício político.
As dificuldades vivenciadas pelas mulheres em suas trajetórias políticas são muitas. Verifica-se que há defasagens em sua formação e socialização, que dificultam ou adiam o processo de inserção política. De maneira geral, as mulheres, voluntariamente, não manifestam o interesse pela carreira política. É necessário que homens lhes apontem suas habilidades e lhes convidem para o exercício político. Os obstáculos vividos no dia-a-dia da política demarcam os aspectos que precisam aprender para se desenvolverem em suas tarefas. Entretanto, as dificuldades não as amedrontam, pois vencidos os desafios, elas se instrumentalizam e aumentam suas competências e habilidades.

Dificuldades relativas às questões de gênero são constantes.
Companheiros e filhos sentem dificuldades de conviverem com as atividades políticas das esposas e mães; é preciso negociar sempre no âmbito familiar. Há homens e mulheres que não reconhecem a importância da  participação de mulheres em espaços da política. Ainda há muitas agressões endereçadas às mulheres, em âmbitos de poder, que se pautam, simplesmente, no fato de serem mulheres. Mulheres politizam novos temas antes relegados a segunda plana; se organizam em instâncias suprapartidárias (“Bancadas Femininas”) para alcançarem os objetivos. Vale destacar o funcionamento das “Bancadas Femininas”, pois se configura em um dos recursos utilizados no respaldo à incursão das mulheres no mundo “masculino” de poder. As terminologias “Bancadas Femininas” são utilizadas somente pelas líderes em política, entretanto os três grupos pesquisados se organizam como grupo de mulheres para alcançarem objetivos comuns às mulheres. Nem todas as mulheres participam desse processo, reafirmam, assim;
7.
A guisa de conclusão que o espaço de poder é eminentemente masculino, reproduzindo seus comportamentos e atitudes.
São muitos os impactos da experiência de poder em instâncias decisórias na vida e identidades das mulheres. Há conquistas em nível pessoal e coletivo. Em nível pessoal, pode-se considerar que as mulheres crescem; ampliam a rede de relações sociais e conhecimentos; manifestam seus desejos; passam a responder por suas escolhas e se tornam sujeitos no meio familiar e social. Em nível coletivo, ao darem visibilidade a temas que antes não eram considerados, alcançam benefícios sociais e políticos, que se estendem a outros segmentos sociais, como velhos e crianças. Ampliam o espaço do diálogo nas relações políticas; utilizam, no âmbito da política, recursos que foram apreendidos no meio doméstico; ressignificam comportamentos; descobrem recursos eficazes para lidarem com homens no espaço de poder. Alcançam o reconhecimento social frente às suas ações e conquistas políticas. A partir deste estudo acredito que é importante pesquisar ainda sobre vários pontos, tais como: o resgate da memória social das mulheres com vistas a recuperar a história de participação feminina em espaços de poder; as estratégias que as mulheres têm usado ao longo da história para participar; sobre organização e funcionamento de diversos grupos de mulheres nos diversos níveis sócio-econômicos (cooperativas de artesanato, grupos pastorais, bancada feminina etc.); a relação entre diversas formas de violência contra mulheres e condição de participação; avaliação do plano de políticas públicas para mulheres (disperso/desenvolvido por 17 ministérios) etc.
E como estratégias importantes a se transformarem em política de incentivo de participação feminina, dentre outras, é interessante pensar em incentivo a educação formal; incentivo e valorização de realização de tarefas conjuntas entre homens e mulheres; a criação de licenças compartilhadas entre pais e mães relativas ao compromisso da maternidade; maior distribuição de tarefas afetivo-domésticas entre homens e mulheres, que impliquem em alterações no processo de socialização de meninos e meninas; cursos de capacitação para lideranças femininas; equiparação de espaços para homens e mulheres para disputa de vagas em cargos de destaque; equiparação salarial etc.
Hoje, apesar de todas as controvérsias, não se pode mais negar a importância das mulheres no espaço da política, assim como a importância da política para o crescimento das mulheres. Além disso, pode-se afirmar que as mulheres não são passivas nem submissas. A miséria, a opressão, a dominação por reais que sejam, não bastam para contar a sua história.
Elas estão presentes aqui e além. Elas são diferentes. Elas se afirmam por outras palavras, por outros gestos. Na cidade e na própria fábrica, elas têm outras práticas cotidianas, formas concretas de resistência – à hierarquia e à disciplina – que derrotam a racionalidade do poder, sobre seu uso próprio do tempo e do espaço. Uma história outra. Uma outra história (Perrot citado por Neves, 1994:05).

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BIBLIOGRAFÍA
Otras Miradas
Revista Venezolana de Estudios de Género
Facultad de Humanidades y Educación
Universidad de Los Andes
Mérida - Venezuela
http://www.saber.ula.ve/revistas
otrasmiradas@ula.ve

                            A MULHER NO PODER:

                                                    
                       A QUEBRA DE UM PARADIGMA

Para mulheres, eleição de Dilma é marco político no país


Publicado em 31/10/2010, 19:05
Última atualização às 19:05
Para mulheres, eleição de Dilma é marco político no país        Com Dilma, feministas esperam mais políticas públicas para mulheres (Foto: Roberto Stuckert Filho)
São Paulo –  A eleição de Dilma Rousseff (PT), primeira mulher presidente da República, é um marco político comemorado por lideranças de movimentos de mulheres. As ativistas ouvidas pela Rede Brasil Atual lembram, porém, que o fato não significa políticas de promoção da igualdade de direitos entre gêneros, fato que depende do empenho da presidente eleita em buscar ações nesse sentido.
"A vitória de Dilma mostra ao mundo que é possível as mulheres estarem em todos os espaços", comemora Rosane Silva, secretária Nacional da Mulher Trabalhadora da CUT. Ela emociona-se ao falar sobre o resultado eleitoral, já que a participação feminina na política ainda enfrenta grandes dificuldades.
Sonia Coelho da Organização Feminista Sempre Viva e militante da Marcha Mundial das Mulheres acredita que a vitória de Dilma é repleta de simbolismo. "A eleição dela é muito importante num país em que as mulheres sempre foram minoria nos principais cargos de decisão", afirma. 
Com Dilma, a feminista espera um novo impulso para o desenvolvimento de políticas públicas para mulheres. "A gente espera que esse resultado se transforme em políticas para reverter a desigualdade que as mulheres vivem", assinala Sonia.
"O fato de Dilma estar lá, faz com que as mulheres reconheçam que a política e os espaços de decisão são espaços para elas. As mulheres têm direito e capacidade para estarem nesses espaços de decisão tão importantes", defende Sonia.
A feminista Yuri Puello Orozco lembra que a eleição de mulheres é um fenômeno que está acontecendo em toda a América Latina. "É um avanço e um fenômeno que está se dando na América Latina. Dilma não é a única", cita. Ela refere-se também a Cristina Kirchner, presidente da Argentina, e Michelle Bachelet, ex-mandatária do Chile.
A eleição da primeira mulher presidente do Brasil também reflete outro avanço, considerando-se que se trata da sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva. "Nós estamos vivendo no Brasil um período muito interessante. Depois de eleger o primeiro operário, que vem das classes populares, vem uma mulher eleita por mais de 51% da população", acredita Célia Regina Costa, secretária da Mulher da Confederação Nacional de Seguridade Social da CUT.

Amadurecimento

Para as militantes do movimento de mulheres ouvidas pela Rede Brasil Atual, a eleição de Dilma significa  um amadurecimento da população e o surgimento de um novo paradigma. "As mulheres ainda são vistas e veem a casa como espaço prioritário. O espaço público, por outro lado, sempre foi visto como prioritariamente do homem", descreve Sonia da ONG Sempre Viva.
Rosane, da CUT, pleiteia que é preciso construir novas relações sociais e partidárias em que as mulheres sejam respeitadas numa dimensão total. "Nós mulheres precisamos ser respeitadas não somente como boas mães, boas educadoras, boas enfermeiras, mas sendo respeitadas como boas políticas", argumenta.
"Podemos estar em todos os espaços de poder e até agora fizemos isso com muita qualidade, honestidade e transparência", reflete a secretária nacional da CUT.]

 Dialogando com os textos supra anexados, relacionanco com a realidade a que vive a mulher moderna, principalmente a mulher brasileira, pode-se observar que a Presidente Dilma é hoje, apesar de muitos rumores pejorativos e jocosos em relação ao seu mandato e sobre a própria, um ícone das vitórias alcançadas pela mulher na ocupação dos espaços na sociedade, representa uma quebra de paradigma e uma abertura para uma maior atuação do gênero feminino no âmbito da política nacional, lembrando-se que, segundo o texto de Betânia Diniz "As  dificuldades vivenciadas pelas mulheres em suas trajetórias políticas são muitas.  que há defasagens em sua formação e socialização, que dificultam ou adiam o processo de inserção política. De maneira geral, as mulheres, voluntariamente, não manifestam o interesse pela carreira política. É necessário que homens lhes apontem suas habilidades e lhes convidem para o exercício político. Os obstáculos vividos no dia-a-dia da política demarcam os aspectos que precisam aprender para se desenvolverem em suas tarefas. Entretanto, as dificuldades não as amedrontam, pois vencidos os desafios, elas se instrumentalizam e aumentam suas competências e habilidades." E, o importante (concluo) é saber que as conquistas, paulatinamente vêm sendo alcançadas, conforme pode-se claramente perceber através dos textos e do vídeo aqui apresentados.
Por Irene Cristina dos Santos Costa, GrupoMSul04 "Performance Negra"

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Do voto feminino à Lei das Cotas: a difícil inserção das mulheres nas democracias representativas

Campanha pelo voto das mulheres 
                                                                                          
O impacto proporcionado pela ação política do movimento feminista é responsável pela gradativa mudança de mentalidade que vem se processando na sociedade, juntamente com a implementação de políticas públicas que têm contribuído para a transformação da condição social das mulheres nas últimas décadas. Embora este fato seja observado por diversos autores, existem setores que continuam como “santuários que fogem às mulheres”: o religioso, o militar e o político, como três ordens da Idade Média, constituem segundo Perrot (1998) espaços que continuam quase inacessíveis às mulheres, haja vista a resistência histórica de integrar mulheres neste “redutos”, no qual os homens dominavam e ainda dominam plenamente.
Ao analisar a presença das mulheres no legislativo em diferentes países da América Latina, do Caribe, dos Estados Unidos e da África pudemos perceber que a representação feminina ainda é bastante desigual. Mesmo em países que passaram por processos revolucionários recentes como foi o caso de Moçambique a representação das mulheres reflete uma iniqüidade de gênero. O Quadro reflete os dados que reforçam a desigualdade.
Quadro I Representação Feminina no Legislativo em diferentes países

PAÍS
DEPUTADAS
SENADORAS
Argentina
27 %
       3 %
México
16 %
     16 %
Colômbia
12 %
     13 %
Chile
11 %
       4 %
Uruguai
10 %
     10 %
Brasil
8,2 %
     12 %
Estados Unidos
14  %
     13 %
Canadá
21 %
     35 %
Moçambique
27 %
        -

No Brasil, a história da participação da mulher no parlamento, tem como marco inicial à conquista do direito ao voto que se deu em 1932. Essa conquista é resultado da luta contínua do movimento sufragista, que emergiu, no Brasil em 1919, culminou com a conquista do direito ao voto pelas mulheres, mas, não foi suficiente para que estes contingentes humanos superassem o processo de exclusão.
Até a década de 1970 esse quadro de exclusão não sofreu muitas modificações. A partir do final da década de 1980, a situação se modifica, em virtude do crescimento industrial, que contribuiu para um aumento significativo da participação feminina no mercado de trabalho, e, na crescente inserção das mesmas, nos cursos superiores. A isto se aliou o processo de redemocratização do País que se instaurou nesse período. Esses fatos contribuem, para ampliar a participação da mulher nas esferas de poder, encorajando-as, também, a organizarem-se politicamente, o que revela a importância dos movimentos de mulheres nesse processo.
O momento da elaboração da nova constituição brasileira foi fundamental, para que as mulheres, a partir de sua atuação conquistassem direitos legais e obtivesse legitimidade para suas reivindicações, inclusive na esfera da política institucional. Nesse período foram criados os Conselhos Nacional, Estaduais e Municipais da Condição Feminina, as delegacias da mulher, os coletivos de mulheres nos partidos e sindicatos, a implementação da Lei das Cotas. Porém, essas instâncias de representação e reconhecimento político não determinaram um equilíbrio entre homens e mulheres em termos de representação no legislativo.
Um breve balanço sobre resultados eleitorais de 2002
Atualmente, as mulheres constituem 8,2% dos/as representantes responsáveis pela elaboração das leis nesse País. São 42 deputadas num universo de 515 deputados que compõem a Câmara Federal. Se considerarmos o pleito anterior de 1998, tínhamos  29 deputadas eleitas que representavam cerca de 5,6% do total de representantes na Câmara Federal, indicando um incremento na atual legislatura de 45 % quando comparada à eleição passada. Nas eleições de 1994 foram eleitas 26 deputadas, cujo índice situava-se no patamar de 5%. Percebe-se que a cada eleição o número de mulheres cresce, e se compararmos com as eleições de 1986 quando foram eleitas 16 deputadas para elaborar a carta constitucional em vigor, pode-se então considerar que tem diminuído o fosso existente entre os gêneros no que se refere a participação no legislativo. A desigualdade, entretanto, ainda permanece, quando se compara quantitativamente.
No que se refere ao Senado, por exemplo, estabeleceu-se a mesma relação desigual, das 81 cadeiras, apenas 10, são ocupadas por mulheres o que representa 12,3%. Para ilustrar melhor esses dados apresentamos nos quadro abaixo os quantitativos numéricos da representação feminina por Estado e partido.
 Caixa de texto: Quadro II - REPRESENTAÇÃO FEMININA NO SENADO FEDERAL 
 
Marina Silva                    AC                   PT 
Fátima Cleide                  RO                   PT 
Serys Marly                     MT                  PT 
Ana Júlia                          PA                   PT 
Patrícia Gomes                CE                    PPS 
Roseana Sarney               MA                   PFL 
Idely Salvati                     SC                   PT 
Lucia Vânia                      GO                  PSDB 
Heloisa Helena *              AL                   PT 
Maria do Carmo*              SE                   PFL 
* Essas duas senadoras foram eleitas nas eleições de 1998. (CFEMEA, 2002, p.6). 
 
 
 Nas análises sobre a representação feminina no Senado Federal (Quadro II) não se pode deixar de evidenciar o fato de que 60 % da bancada feminina eleita pertence ao Partido dos Trabalhadores, e 60 % das senadoras pertencem as regiões norte e nordeste do Brasil caracterizado por cientistas políticos como grandes redutos masculinos marcado pelo patriarcado - pelo caciquismo e pelas oligarquias dos partidos considerados conservadores. Por outro lado, percebe-se que em relação aos Estados de maior densidade populacional e economicamente mais desenvolvidos: SP, RJ, RS, MG, PR, não existe nenhuma representação feminina nessa instância de poder. A maioria das senadoras eleitas representa partidos considerados de esquerdatrazendo assim, elementos para novas análises de pesquisadores dessa área.
Na representação partidária, a bancada que mais elegeu mulheres na Câmara Federal a exemplo do que já ocorreu no Senado foi o PT. Das 42 deputadas eleitas, 14 pertencem aos quadros do Partido dos Trabalhadores. As outras 28 estão divididas entre o PFL e PSDB (cada um elegeu 6 deputadas), o PMDB e PC do B  também elegeram 4 deputadas cada um), o PSB e o PTB (elegeram 2 deputadas, cada) e o PDT, PSD, PST e PPB cada um desses partidos elegeu 1 deputada. Vale ressaltar o fraco desempenho do PPB que de 49 deputados eleitos nenhuma do sexo feminino.(Quadro III)
 Caixa de texto: Quadro III - REPRESENTAÇÃO  FEMININA NO CONCRESSO NACIONAL 
 LEGISLATURA 2003/2007 
 
ESTADOS                                        Nº DEPUTADAS ELEITAS 
Acre                                                                   1 
Amapá                                                               1 
Bahia                                                                  2 
Distrito Federal                                                   1 
Espírito Santo                                                    2 
Goiás                                                                 2 
Maranhão                                                          2 
Mato Grosso                                                      2 
Minas Gerais                                                     1 
Para                                                                   1 
Piauí                                                                  1 
Paraná                                                               1 
Paraíba                                                              2 
Rio de Janeiro                                                   6 
Rio Grande do Norte                                         2 
Rio Grande do Sul                                             4 
Rondônia                                                           1 
Roraima                                                             2 
Santa Catarina                                                   1 
São Paulo                                                          6 
Tocantis                                                             1 
TOTAL                                                           42 
 
 
 
 Os índices para as Assembléias Legislativas são um pouco mais elevados, porém, não é uma alteração substancial em relação à Câmara Federal. Das eleições de 1998 às de 2002 houve um aumento na ordem de 25, 5 % de deputadas estaduais. Hoje são 133 deputadas representando 12,5 % quando em 1998 eram 106 deputadas, que representava 10% dos integrantes. Dos Estados que elegeram a maior bancada feminina no legislativo destacam-se o Estado do Rio de Janeiro e São Paulo que elegeram 10 parlamentares, Maranhão, Ceará, Pará e Pernambuco elegeram 8 deputadas. No legislativo estadual os dados apontados pelo CFEMEA (2002) também indicam que estão filiados ao PT os maiores números de deputadas eleitas na atual legislatura.
Nas Câmaras Municipais o percentual é mais elevado, a presença feminina corresponde a 11,6 % do total de vereadores das eleitos em 2000. São nas câmaras municipais local onde se registram um maior incremento da participação das mulheres em espaços de poder. Em 1982 - pontua-se essa data, pois coincide com o início da “abertura política” do país, - o percentual de vereadoras correspondia a 3,5% do total. Em 1992, o índice situava-se na faixa dos 8%. Nas eleições de 1996, este percentual passa a corresponder a 11% do total de representantes nas câmaras municipais. Os números evidenciam um incremento na ordem de 300 % nos últimos vinte anos. Entretanto quando comparamos os dados, fica evidente a desigualdade já que são 7.001 vereadoras e 53.266 vereadores. Um exemplo dessa desigualdade é a Câmara Municipal de São Luís, Capital do Maranhão que elegeu apenas uma mulher vereadora.
Na Câmara Municipal de Araraquara por exemplo são 5 vereadoras num universo de 21 vereadores, quadro esse que se modificou substancialmente nas últimas eleições , uma vez que, as legislaturas de 92 e 96 apenas 2 vereadoras foram eleitas. Nos cargos da administração direta nesse municipio as mulheres estão a frente de 4 secretarias: Saúde, Educação, Assistência Social e Secretaria de Governo que me parece um número razoável, proporção semelhante ao número de mulheres representadas no ministério de Lula. Temos 5 (cinco) ministras que, se compararmos com governos anteriores representa um aumento significativo, entretanto quando analisamos por outros campos percebe-se que as distâncias e desigualdades na distribuição do poder no País é uma realidade que precisa ser superada.
A lei das cotas e a representação das mulheres no poder
O processo de implementação da política de cotas no Brasil é muito recente. Contudo, esta política vem dando, no mínimo, mais visibilidade à exclusão da mulher nos espaços políticos e às disparidades existentes no âmbito político, entre homens e mulheres. Por esta razão, elas vêm sendo tratadas como um tema central das discussões de gênero e política, sendo consideradas pelo movimento feminista como expressão e reconhecimento público alcançado pelas demandas femininas.
Existem muitos equívocos a respeito das cotas que precisam ser elucidados enfatiza Delgado (1996), por exemplo, a de que 30% de participação das mulheres não resolvem a desigualdade: a luta deve ser por 50%. Embora o movimento lute pela paridade, um percentual de 30% representa um ganho político se considerarmos a estrutura da sociedade e a relações patriarcais que perpassam toda a estrutura da mesma. Um outro grande equívoco é o de que a Lei das Cotas não garante que a mulher tenha real acesso ao poder. As Cotas não irão mudar as relações de poder à curto prazo, uma vez que ela representa um elemento que modifica a composição dos órgãos diretivos, traz novas idéias para o debate e propicia uma nova forma de aprendizagem do exercício do poder. Além disso, as cotas aguçam a participação feminina e tende a criar condições mais favoráveis a ampliação do número de mulheres nas direções de sindicatos, partidos, assembléias, câmaras etc, que por sua vez irão tornar mais visível seu cotidiano e os obstáculos à sua integração à vida política.
O que é preciso fazer para mudar essa realidade?
A história a cada dia desvenda a importância da participação das mulheres e de sua ação política nos processos revolucionários. Da Revolução Francesa e Americana à Revolução Industrial, da abolição da escravatura à ampliação dos direitos dos/as cidadãos/cidadãs, as mulheres foram força e presença em todos os processos revolucionários que mudaram as relações entre os homens e entre os gêneros.
No Brasil, a presença das mulheres nas lutas libertárias está sendo desvendada à medida que as pesquisas com enfoque de gênero trazem à tona novos sujeitos, antes invisíveis por uma ciência que não lhes reconhecia como tal. São reconhecidas e notórias as presenças de precursoras como Nísia Floresta, Isabel Dilan, Bertha Lutz, Gilka Machado, Leolinda Daltro, que foram lutadoras intransigentes dos direitos femininos, dentre os quais o direito ao voto.
A conquista do voto em 1932 não significou para as mulheres uma mudança substancial nos valores sociais então vigentes, uma vez que estas continuaram submetidas a uma estrutura patriarcal conservadora e a um modelo de cidadania que privilegiava a imagem pública como espaço masculino. As mulheres, pela trajetória como se inseriram na política, precisavam de um tempo maior para se adaptar à nova realidade. A insegurança, o desconhecimento das regras do mundo público, os condicionamentos culturais e psicológicos, as práticas partidárias excludentes, continuavam atuando sobre as mulheres, mantendo-as afastadas da estrutura formal do poder político.(FERREIRA, 2003).
As ações afirmativas (mais precisamente a lei de cotas) são formas positivas de reverter formalmente o quadro de desigualdade entre os gêneros e entre seres historicamente excluídos. A Lei 9.100/95 vem responder as reivindicações dos movimentos de mulheres, entretanto, sabe-se que, somente com uma ação conjunta das diversas organizações de mulheres, com os partidos políticos, e a partir de um projeto de educação política que tenha o gênero como recorte metodológico, será possível diminuir estas disparidades.
É certo que a Lei das Cotas não irá mudar esse quadro nas próximas eleições, entretanto, a legalidade permitirá uma maior ousadia das mulheres de adentrar num mundo antes interditado. O ato de permitir, o que antes foi negado de forma autoritária e irracional, pode ser também estimulante. A presença cada vez maior de mulheres nas Câmaras Municipais significa sua preocupação com os destinos da Cidade da qual elas estão mais próximas, mais receptivas e com maior poder de articulação para intervir dadas as suas relações familiares. Sua inserção em um espaço geográfico mais favorável, o deslocamento para exercer a vida pública é mais facilitado. Diferente das Assembléias Legislativas e Câmara Federal, que significa muitas vezes dificuldade de conciliar a vida pública com a vida privada, dada as cobranças que em geral são feitas às mulheres, ao contrário dos homens que são mais estimulados, uma vez que o poder lhe é visto como algo natural, intrínseco a sua condição de homem.
Assim, nas minhas análises, aponto que a Lei das Cotas que por se só já demonstra um fato político que não foi dado de “mão beijada”, foi uma conquista, fruto de uma história, na qual as mulheres foram sujeito. As mudanças que elas irão proporcionar no cenário político já são previsíveis pelo menos num ponto: maior visibilidade para as questões daquelas que são a “metade encabulada da humanidade” (parafraseando a Profa. Lucila Scavone), que durante séculos foram impedidas de exercer o poder e dirigir seus destinos, quiçá os destinos das Nações.
                                       http://www.espacoacademico.com.br/037/37cferreira.htm

Desigualdades de gênero e cor no Brasil

         
Neste texto, Kaizô Beltrão e Moema Teixeira nos contam duas histórias opostas, que ocorreram no Brasil nos últimos cinqüenta anos – a transformação profunda da posição da mulher no mundo do estudo e das profissões, e o difícil e ainda lento processo de eliminação das diferenças entre brancos e não brancos.
Parte da primeira história está contada no gráfico 1, baseado em dados da PNAD de 2003. A educação de homens e mulheres no Brasil nunca foi muito diferente, em termos de anos de escolaridade, e vem crescendo de geração a geração, com quatro anos de escolaridade media para os que tem hoje 60 anos, e duas vezes mais para que os que hoje tem 20.
Quarenta anos atrás, poucos no Brasil terminavam o ensino médio e entravam nas universidades, e eram quase todos homens. Naquele tempo, a educação das mulheres não ia além das escolas secundarias, aonde se preparavam para o casamento, ou das escolas normais, de formação de professoras. Hoje, a maioria dos estudantes de ensino superior são mulheres, e o nível educacional das mulheres de 50 anos e menos já maior
do que o dos homens. Além disto, todos os indicadores educacionais mostram que as mulheres permanecem mais tempo na escola, e têm desempenho melhor. As mulheres já invadem também as antigas profissões masculinas, como a engenharia, a medicina e o direito. Esta entrada das mulheres no mundo das profissões está relacionada às transformações da família tradicional, ao ingresso das mulheres no mercado de trabalho, e à grande redução da taxa de fecundidade ocorrida no país, que deu mais condições para que as mulheres deixassem de se dedicar exclusivamente à vida doméstica. Nem tudo são flores. Ainda existem profissões predominantemente femininas, como o magistério, o serviço social ou a enfermagem, de rendimentos relativamente baixos, e que atraem sobretudo mulheres de famílias mais pobres. Em praticamente todas as carreiras, as mulheres ocupam menos posições de destaque do que os homens, e seus salários são também menores. Mas a grande preocupação no Brasil, em termos de educação, não é a situação das mulheres, como ocorre em muitos paises da Ásia, África e da região andina, e sim com a situação dos homens, e especialmente dos jovens que abandonam a escola aprendendo pouco, e com possibilidades cada vez menores de conseguir se integrar ao mercado de trabalho.
A segunda história está contada no gráfico 2. Sempre foram profundas, no Brasil, as diferenças entre brancos e não brancos. Todos melhoraram sua escolaridade nas últimas décadas, mas só muito recentemente a diferença começou a se reduzir. Estas diferenças em escolaridade afetam a chance de pessoas não brancas de ingressar no ensino superior, e conseguir posições de trabalho adequadas nas profissões mais prestigiadas e bem pagas. Na PNAD 2003, os brancos eram 49.5% da população, mas ocupavam 73.8% das matrículas no ensino superior de graduação, e 80% dos programas de mestrado e doutorado. Os brancos que se formam nas universidades trabalham, sobretudo, em atividades de gerência em empresas, como professores, ou como advogados ou médicos. Pardos e negros também se concentram nestas profissões, com o predomínio das atividades de magistério, seguidas de atividades administrativas de diferentes tipos. Existem no entanto profissões que, embora pequenas, são predominantemente ocupadas por pardos e negros: são sobretudo técnicas, ou de trabalhadores especializados na indústria e nos serviços.
Uma explicação possível para estas histórias tão diferentes é que, no Brasil, as mulheres sempre compartilharam a posição social dos homens com quem convivem, enquanto que brancos e não brancos sempre viveram em mundos socialmente distantes. Os especialistas discutem se estas diferenças se devem à herança da escravatura, ou a diferença de classes, ou a preconceitos e barreiras de raça. O mais provável é que seja tudo isto ao mesmo tempo. Os dados mostram que, com o tempo, todos melhoram, e os não brancos de hoje tem a educação que tinham os brancos 20 anos atrás. Mas é um ritmo demasiado lento, e explica muito da desigualdade de oportunidades que é a marca da sociedade brasileira, e que precisamos aprender rapidamente a superar.

domingo, 28 de agosto de 2011

HISTÓRIA DO FEMINISMO

                                                                                      
Movimento sociopolítico que luta pela defesa e ampliação dos direitos da mulher. Surge na primeira metade do século XIX, na Inglaterra e nos EUA, com o objetivo principal de conquistar direitos civis, como o voto e o acesso ao ensino superior. Ressurge na década de 60, nos EUA, com reivindicações mais amplas, como o direito à sexualidade e à igualdade com os homens no mercado de trabalho.
Para o feminismo, as diferenças entre os sexos não se podem traduzir em relações de subordinação na vida social, profissional ou familiar. O movimento procura reforçar a identidade sexual feminina negando a relação de hierarquia entre o homem e a mulher. Defende, ainda, que as qualidades ditas femininas ou masculinas sejam vistas como atributos do indivíduo e não de um ou outro sexo. Ocupa-se de questões como sexualidade, controle da natalidade e violência contra mulheres. Embora tenha alcance internacional, o movimento feminista não é unificado nem possui uma organização central. Caracteriza-se pela auto-organização das mulheres em múltiplas frentes. Seus métodos de atuação variam: desde grupos de pressão política até grandes manifestações públicas.

Conferência de Pequim

De 4 a 15 de setembro de 1995, representantes de 180 países reúnem-se na China num encontro promovido pela ONU para tratar das questões femininas. Aprovado por consenso, o documento final da conferência afirma que as mulheres são as principais vítimas da pobreza e denuncia que estupros sistemáticos estão sendo usados como tática de guerra. Entre os abusos contra as mulheres, também são denunciados no documento o casamento forçado, a exploração sexual, a circuncisão feminina, a seleção pré-natal por sexo e a violência doméstica. O texto sugere aos governos a revisão das leis que prevêem punições às mulheres que fazem abortos ilegais e inclui, entre os direitos femininos, o de decidir sobre temas ligados à sua sexualidade.

Feminismo no Brasil

No Brasil, a luta das mulheres pelo voto dura 22 anos. Começa em 1910, com a fundação do Partido Republicano Feminino, no Rio de Janeiro, e termina em 1932, quando o presidente Getúlio Vargas promulga por decreto-lei o direito das mulheres de votar e ser votadas. Nos anos 60 e 70, o feminismo acompanha a luta pela volta da democracia ao país. São criados o Movimento Feminino pela Anistia e o Centro da Mulher Brasileira, e aparecem jornais como Brasil-Mulher e Nós Mulheres. A partir da década de 80, grupos feministas espalham-se pelo país. Ligado ao Ministério da Justiça, em 1985 é fundado o Conselho Nacional da Condição Feminina.
Fonte: http://www.geocities.yahoo.com.br
FEMINISMO

Feminismo é o movimento social que defende igualdade de direitos e status entre homens e mulheres.
Embora ao longo da história diversas correntes filosóficas e religiosas, tenham defendido a dignidade e os direitos da mulher, o movimento feminista remonta mais propriamente à revolução francesa. A convulsão desencadeada em 1789, além de pôr em cheque o sistema político e social então vigente na França e no resto do Ocidente, encorajou as mulheres a denunciar a sujeição em que eram mantidas e que se manifestava em todas as esferas da existência: jurídica, política, econômica, educacional etc.
Enquanto os revolucionários proclamavam uma declaração dos direitos do homem e do cidadão, a escritora e militante Olympe de Gouges redigia um projeto de declaração dos direitos da mulher, inspirada nas idéias poéticas e filosóficas do marquês de Condorcet, que integrava a Assembléia. Desde o início da revolução, as francesas participaram ativamente da vida política e criaram inúmeros clubes de ativistas femininas. Em 1792, uma delegação encabeçada por Etta Palm foi até a Assembléia para exigir que as mulheres tivessem acesso ao serviço público e às forças armadas. Essa exigência não foi atendida e o movimento feminino foi suprimido pelo Terror. Robespierre proibiu que as mulheres se associassem a clubes, e o projeto de igualdade política de ambos os sexos foi arquivado.
Em 1848, a França conheceu nova revolução e, como a anterior, sacudiu as bases da ordem estabelecida.
Mais uma vez os clubes femininos proliferaram no país. As mulheres agora reivindicavam não só a igualdade jurídica e o direito a voto, mas também a equiparação de salários. Essas novas exigências se explicavam pelas transformações da sociedade européia da época. Com a crescente industrialização, as mulheres dos meados do século XIX foram cada vez mais abandonando seus lares para empregar-se como assalariadas nas indústrias e oficinas. Entraram, assim, em contato com as duras realidades do mercado de trabalho: se os operários da época já eram mal pagos, elas recebiam menos ainda.
Conseqüentemente, era mais vantajoso dar emprego às mulheres que aos homens, e, assim, estes últimos viram-se envolvidos em uma penosa concorrência com o outro sexo. Irromperam até mesmo movimentos de oposição ao trabalho feminino.
Nesse confuso panorama, emergiram dois fenômenos significativos. A partir do momento em que as mulheres se mostraram capazes de contribuir para o sustento de suas famílias, não foi mais possível tratá-las apenas como donas-de-casa ou objetos de prazer. As difíceis condições de trabalho impostas às mulheres conduziram-nas a reivindicações que coincidiam com as da classe operária em geral. É, pois, dessa época que data a estreita relação do feminismo com os movimentos de esquerda.
Feminismo nos Estados Unidos e no Reino Unido: Os Estados Unidos e o Reino Unido também se notabilizaram por vigorosos movimentos feministas, surgidos já em princípios do século XIX. Em 1837, fundou-se nos Estados Unidos a universidade feminina de Holyoke e, nesse mesmo ano, realizou-se em Nova York uma convenção de mulheres que se opunham à escravidão. O abolicionismo foi, efetivamente, um dos temas centrais do desenvolvimento e consolidação do movimento feminista americano.
No Reino Unido, Mary Wollstonecraft publicou A Vindication of the Rights of Women (1792; Reivindicação dos direitos das mulheres), obra em que exigia para as mulheres as mesmas oportunidades de que gozavam os homens na educação, no trabalho e na política. Mas foi somente em meados do século XIX, graças aos esforços conjuntos de Barbara Leigh Smith e do filósofo e economista John Stuart Mill, que se criou um comitê do sufrágio feminino. Em 1866, esse comitê apresentou ao Parlamento um projeto igualitário, que foi rejeitado.
Apesar dos êxitos parciais alcançados, o movimento sufragista britânico teve de esperar também o século XX para ver coroados seus esforços.
O movimento feminista brasileiro teve como sua principal líder a bióloga e zoóloga Berta Lutz, que fundou, em 1922, a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Essa organização tinha entre suas reivindicações o direito de voto, o de escolha de domicílio e o de trabalho, independentemente da autorização do marido. Outra líder feminina, Nuta Bartlett James, participou das lutas políticas do país na década de 1930 e foi uma das fundadoras da União Democrática Nacional (UDN).

Feminismo no século XX

Desde o início do século XX, a situação mudou rapidamente pelo mundo inteiro. A revolução russa de 1917 concedeu o direito de voto às mulheres e, em 1930, elas já votavam na Nova Zelândia (1893), na Austrália (1902), na Finlândia (1906), na Noruega (1913) e no Equador (1929). Por volta de 1950, a lista compreendia mais de cem nações.
Após a segunda guerra mundial, o feminismo ressurgiu com vigor redobrado, sob a influência de obras como Le Deuxième Sexe (1949; O segundo sexo), da francesa Simone de Beauvoir, e The Feminine Mystique (1963; A mística feminina), da americana Betty Friedan. No Reino Unido destacou-se Germaine Greer, australiana de nascimento, autora de The Female Eunuch (1971; A mulher eunuco), considerado o manifesto mais realista do women's liberation movimento (movimento de libertação da mulher), mundialmente conhecido como women's lib. Agora já não se tratava mais de conquistar direitos civis para as mulheres, mas antes de descrever sua condição de oprimida pela cultura masculina, de revelar os mecanismos psicológicos e psicossociais dessa marginalização e de projetar estratégias capazes de proporcionar às mulheres uma liberação integral, que incluísse também o corpo e os desejos. Além disso, contam-se entre as reivindicações do moderno movimento feminista a interrupção voluntária da gravidez, a radical igualdade nos salários e o acesso a postos de responsabilidade.
O objetivo de plena igualdade, nunca radicalmente alcançado, realizou-se de forma muito desigual nos diversos países. Entre os principais obstáculos, os de índole cultural são de grande importância. Assim, por exemplo, sobrevivem em grande parte do continente africano resíduos da organização tribal. Em outra esfera, as peculiaridades culturais do mundo islâmico redundam em dificuldades e atrasos na consecução das reivindicações feministas.
Fonte: http://www.renascebrasil.com.br
FEMINISMO
Feminismo é uma teoria social, uma corrente filosófica e um movimento político. Formado e motivado primeiramente a partir de experiências da mulher, ele apresenta uma crítica à desigualdade social dos sexos (numa perspectiva sociológica de gênero) e promove os direitos das mulheres, seus temas e interesses.
                                        
Cartaz a incentivar as mulheres a trabalharem nas fábricas durante a Segunda Guerra Mundial.
As autoras (e os autores) do feminismo tentam compreender a natureza da desigualdade e enfocam a política dos sexos, relações de poder e sexualidade. Activistas políticas feministas advogam a igualdade social, política e económica entre os sexos, inscrita inclusivamente nas constituições e tratados internacionais. Tentam esclarecer questões sobre temas como direitos reprodutivos, a posição da mulher como objecto (essencialmente sexual), violência sexual e doméstica, licença pós-parto, igualdade salarial, assédio sexual, discriminação no local de trabalho, pornografia e o patriarcalismo.
As bases do feminismo se assentam na idéia de que a sociedade é organizada de forma patriarcal, em que o homem recebe vantagens sobre a mulher.
A teoria feminista moderna é predominantemente, embora não exclusivamente, associada a teóricas e teóricos acadêmicas de classe média, no ocidente. O feminismo no entanto é profundamente amplo e enraizado na sociedade, estendendo-se através das fronteiras de classe, raça ou localidade. O movimento tem especificidade cultural, procurando questionar os tópicos relativos à posição da mulher na sociedade em questão (por exemplo, quando trata de mutilação sexual em sociedades onde isso acontece, ou o sexismo das sociedades ocidentais). Alguns temas, entretanto, são universais, como estupro, incesto, aborto, criação de filhos, etc.

História

Os primeiros textos sobre a questão do papel da mulher criticavam as restrições de atividades impostas às mulheres, sem necessariamente culpar os homens por isso ou dizer de modo geral que as mulheres eram inferiorizadas. O livro "Em defesa dos direitos da mulher", de de Mary Wollstonecraft, é um dos poucos trabalhos escritos antes do século XIX que podem ser classificados como feminista. Pelos padrões modernos, a sua metáfora das mulheres como a nobreza, a elite da sociedade, mimada, frágil e em perigo de preguiça intelectual e moral, não soa como um argumento feminista. Wollstonecraft acreditou que ambos os sexos contribuíram para esta situação e tomou como uma verdade que as mulheres tinham um poder considerável sobre os homens.
O feminismo é tido geralmente como iniciado no século XIX, período em que os povos adoptaram cada vez mais a percepção que as mulheres são oprimidas numa sociedade centrada no homem (veja patriarcalismo). Para alguns, este tipo de perspectiva só seria possível após o fenómeno do iluminismo, do século XVIII; e não seria por acaso que o feminismo tivesse surgido iniciamente nos países protestantes, onde o iluminismo foi mais acentuado — países como Portugal, católicos e sócio-economicamente menos desenvolvidos, apresentariam, segundo essa perspectiva, um défice histórico relativamente à sensibilidade para o feminismo que ainda se faz sentir. As raízes do movimento encontram-se pois no mundo ocidental, em especial nos movimentos de reforma do século XIX. Como movimento organizado, data da primeira convenção dos direitos da mulher em Seneca Falls, Nova Iorque em 1848.
Primeira convenção internacional dos direitos da mulher (realizada nos EUA)Emmeline Pankhurst foi uma das fundadoras do movimento das sufragistas e pretendeu revelar o sexismo institucional na sociedade britânica, tendo criado a união social e política das mulheres (WSPU). Após ser presa repetidas vezes com base na lei "Cat and Mouse", por infrações triviais, inspirou membros do grupo a fazer greves de fome. Ao serem alimentadas à força e ficarem doentes, chamaram à atenção pela brutalidade do sistema legal na época e também divulgaram sua causa.
Ao longo de um século e meio, o movimento cresceu para hoje incluir diferentes perspectivas sobre o que constitui discriminação contra mulheres. As feministas pioneiras e os primeiros movimentos feministas são normalmente chamados de primeira onda. Movimentos feministas ativos a partir dos anos 60 são chamados da segunda onda. Existe uma terceira onda, nos dias atuais, embora haja grande diferença entre os pontos de vista dos diversos grupos feministas. A associação com ondas remete a característica dessas fases, de sempre recobrir a fase anterior, aproveitando alguns elementos.

Feminismo no Brasil

As raízes do feminismo no Brasil se encontram no movimento pelos direitos políticos, ainda no século XIX. Durante o império, alguns juristas tentaram legalizar o voto feminino, com ou sem o consentimento do marido. A constituição republicana de 1889 continha inicialmente uma medida que dava direito de voto para as mulheres, mas na última versão essa medida foi abolida, pois predominou a idéia de que a política era uma actividade desonrosa para a mulher.
Em 1922, aquela que é considerada a pioneira no feminismo brasileiro, Berta Lutz, fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, que lutava pelo voto, pela escolha do domicílio e pelo trabalho de mulheres sem autorização do marido.
O Rio Grande do Norte foi o estado pioneiro no país a legalizar o voto feminino, em 1927. A primeira eleitora registrada foi Celina Guimarães Viana. O código eleitoral elaborado em 1933 finalmente estendia o direito a voto e a representação política às mulheres; na constituinte de 1934 houve uma representante do sexo feminino, a primeira deputada do Brasil: Carlota Pereira de Queirós.
O movimento feminista actualmente tem como bandeiras principais, no Brasil, o combate à violência doméstica — que atinge níveis elevados no país — e o combate à discriminação no trabalho. Também se dá importância ao estudo de gênero e da contribuição, até hoje um tanto esquecida, das mulheres nos diversos movimentos históricos e culturais do país. A legalização do aborto (que atualmente só é permitido em condições excepcionais) e a adoção de estilos de vida independente são metas de alguns grupos.

A Revolução das Mulheres
Moema Toscano e Mirian Goldemberg

A respeito do livro, "A Revolução das Mulheres", de Moema Toscano e Mirian Goldemberg, será feita uma breve leitura. Não se pretende, no entanto, hastear uma bandeira feminista. O objetivo é levantar alguns dados históricos sobre a questão da mulher, como a importância dos movimentos feministas e o papel das mulheres nos grandes acontecimentos da história, tanto na Europa quanto no Brasil.
Quando se fala sobre a questão da mulher se pensa em um discurso repetitivo e cansativo. A intenção aqui não é a de endeusar as mulheres, muito menos de crucificá-las ou estigmatizá-las por seus feitos ao longo da história. A intenção, ou pretensão é encontrar o seu lugar dentre os acontecimentos marcantes de toda a sociedade, seja na política na filosofia e nos grandes marcos da história. Busca-se descobrir onde estavam as mulheres quando foram registrados os nomes de grandes homens nas placas e nos monumentos das praças públicas. Percebe-se que, talvez, estas questões já sejam demasiadamente complexas para que se faça uma simples leitura, mas, como já referido, não se tem a intenção de criar um marco em relação às questões já escritas sobre as mulheres.
É possível se observar que quando há identificação com alguns conceitos, sejam de ordem social, política ou cientifica, passa-se a ter uma visão, ou opinião a partir deles. Ou seja, se há uma identificação com o Partido Comunista e um envolvimento com ele, passa-se a ver as questões sociais, educacionais e políticas a partir dos princípios deste Partido. Não quer dizer que concordar com suas idéias ou ver a realidade a partir dos princípios comunistas seja algo negativo. É por isso que as idéias feministas e os seus discursos percebem em toda sociedade e em todos os movimentos, tanto masculinos quanto femininos, os preconceitos, e, portanto, o feminismo e o machismo. Para as feministas o mundo está dividido entre homens e mulheres. Dois lados em constante confronto, onde cada palavra e cada movimento estão previamente estigmatizados.
Serão vistos alguns tópicos sobre a questão da mulher no Brasil, o que torna indispensável que se fale na origem do feminismo. O movimento feminista, que tem sua origem na Europa Ocidental, se concretiza e toma forma a partir do século XVIII. Não quer dizer que não existissem descontentamentos, por parte da mulher em relação ao homem, anteriormente. É a partir das grandes revoluções que o feminismo incorpora seu cunho reivindicatório e, unindo-se a alguns Partidos, ganha força de expressão. Com a expansão do capitalismo e a Revolução Francesa surgem os "partidos de esquerda" onde as mulheres encontram espaço para as suas manifestações. Os partidos precisavam de mais colaboradores e as mulheres precisavam de um espaço para manifestar as suas reivindicações, como por exemplo, o direito ao voto. Não é a título gratuito, que estejam ligados, portanto, os movimentos feministas aos movimentos políticos.
Segundo as autoras, alguns homens engajaram-se, ou pelo menos, foram solidários à idéia da importância da mulher como agente de mudanças. Seriam estes os grandes autores das questões sociais, muito bem lembrados, como: "Condorcet, Voltaire, e Montesquieu", dentre outros.
Muitas mulheres tiveram uma participação ativa na Revolução Francesa. Como resultado dessa participação, se registra, por exemplo, a instauração do casamento civil e a legislação do divórcio. Durante a Primeira Guerra Mundial as mulheres lutaram juntamente com os homens na intenção de que, se equiparando a eles, teriam os mesmos direitos que estes, já que cumpriam com os mesmos deveres. Porém, ao retornarem, no fim da guerra, as mulheres viram retroceder as antigas teses conservadoras, segundo as quais, "lugar de mulher é no lar". Em todos esses embates, nos quais as mulheres estiveram presentes, pode-se dizer que, dentre suas buscas, o direito ao voto sempre foi a questão primordial. No entanto somente em "1928, o Parlamento inglês outorgou o direito ao voto a todas as mulheres, em igualdade de condição com os homens".
Comemora-se em 8 de março, o dia Internacional da Mulher, no entanto não se questiona o significado desta data. Inicialmente chamava-se "Dia Internacional da Mulher Trabalhadora", tendo isso sido proposto em 1910, na "Conferência Internacional da Mulher Socialista". O dia foi escolhido em homenagem às operárias de uma fábrica que, no dia oito de março de 1857, fizeram uma manifestação contra as más condições de trabalho e redução da carga horária, ocupando as instalações da indústria. Os patrões desgostosos e um tanto irritados fecharam as portas da fabrica e atearam fogo na mesma. Como resultado desta atitude 129 mulheres foram queimadas vivas. Este dado histórico é fornecido pelas autoras, Mirian e Moema, no livro em questão. Ainda segundo as autoras, a partir do fato esta data foi incorporada apenas por alguns paises Europeus, e somente em "1975, a ONU incluiu o dia oito de Março em seu calendário oficial de comemorações".
A Revolução de 1917 e a formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas trouxeram êxito às buscas do movimento feminista, porém estas conquistas não tiveram um prazer duradouro. Em seguida, com Lênin e Stalin, houve um retrocesso nas árduas conquistas do movimento feminista, pois em 1926 foi aprovado e instaurado por Stalin o Novo Código da Família, derrogando todas as conquistas alcançadas pelo Código da Família de 1917.
Tivemos até aqui um breve esboço de como surgiu o movimento feminista, além de suas lutas e conquistas na Europa. No Brasil a moda sempre foi copiar os modelos europeus, tanto na política como também na questão da mulher. Não está em discussão aqui o porque da cópia dos modelos europeus, pelo Brasil, porém o modelo do Movimento Feminista Europeu foi adaptado e incorporou os aspectos e as características do Brasil. Como aspectos brasileiros que influenciaram o movimento feminista, as autoras Moema e Mirian citam "a escravidão, a tardia emancipação do centro de dominação, o modelo fundiário imposto pelo colonizador português e a influência da Igreja Católica como força política e instrumento de controle social."
O nome Nísia Floresta, muito bem lembrado por Moema e Mirian é um dos primeiros a se manifestar no Brasil como força defensora da busca de igualdade pelas mulheres. Outro nome citado é o de Bertha Lutz, que segundo Mirian e Moema, criou em 1919 a Liga pela Emancipação Feminina. Em 1922 temos vários acontecimentos no Brasil, como: "A criação do Partido Comunista Brasileiro (1922), a Semana da Arte Moderna (1922), o Tenentismo (1922) e a Coluna Prestes (1924-1927)...", que vieram polemizar as estruturas da sociedade brasileira, provocando uma grande discussão sobre seus rumos. Bertha Lutz aproveitou esse clima de alvoroço nos ânimos da sociedade para mudar o nome da Liga pela Emancipação Feminina por Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Além da mudança de nome, também houve uma sacudida nas pretensões da Liga, conseguindo então o apoio de vários políticos e homens públicos como jornalistas e senadores. A partir desse momento era visível a crescente participação da mulher na sociedade, porém ainda não o suficiente para conseguir o direito ao voto.
Um fato muito curioso é verificado por Mirian e Moema, qual seja: a constituição republicana de 1891 já assegurava o voto para as mulheres, porém era mal interpretada. Segundo as autoras, o artigo 171 da Constituição dizia: "São eleitores todos os cidadãos maiores de 21 anos", porém, o termo ‘cidadãos’, segundo a interpretação da época, referia-se aos homens, ao sexo masculino, e não aos cidadãos na forma genérica. A mulher só conseguiu efetivamente o direito ao voto em 1932, sendo que em seguida surge a Legislação Trabalhista de proteção ao trabalho feminino. Como resultado dessas grandes conquistas, e de todos esses movimentos, surgiram várias associações, clubes, ligas e organizações em favor dos direitos femininos. No inicio dos anos 70 surge uma nova retomada do movimento feminista pelas mãos de Romy Medeiros da Fonseca, que foi chamado de Conselho Nacional de Mulheres do Brasil.
Esse movimento torna as questões do movimento mais abrangentes, conquistando coisas como: "principio da igualdade entre marido e mulher no casamento e a introdução do divórcio na Legislação brasileira".
Durante a Ditadura Militar as mulheres organizaram-se, independentemente de partidos políticos, idade e classe social, para formar uma militância contra o regime militar. Em 1975 a ONU organizou o "Ano Internacional da Mulher", e a partir daí a questão da mulher, pode-se dizer, deixou de ser tabu. A questão da mulher passou inclusive a ser tema de discussão nas universidades e em meio aos profissionais liberais.
No mesmo ano aconteceu o Congresso Internacional da Mulher no México e simultaneamente no Brasil, sendo que este mandou ao México Berta Lutz como sua representante. No Brasil o movimento organizou a Semana de Pesquisa Sobre o Papel e Comportamento da Mulher Brasileira. Como resultado desse movimento criou-se, em setembro de 1975, o Centro da Mulher Brasileira, um órgão institucionalizado, responsável por intermediar e articular os objetivos feministas em forma de ação coletiva. Muitas mulheres haviam sido exiladas no exterior e voltavam com grandes contribuições para o CMB. O Centro da Mulher Brasileira propôs um centro de estudos que promoveu grandes seminários e grandes discussões e pesquisas sobre a condição da mulher. Daí surgiram várias publicações em jornais e revistas além da produção de livros.
O Movimento Feminista pela Anistia foi criado no final do ano de 1975. Esse movimento tinha como proposta denunciar as repressões que o governo militar havia imposto aos cidadãos brasileiros. Grande parte do grupo da militância era composta por mulheres que viram seus maridos serem torturados e assassinados pelo governo militar. Esse movimento, independente de partidos políticos e outras ideologias, foi muito apreciado pela sociedade, dando espaço à simpatia de vários grupos políticos. O movimento liderado por Terezinha Zerbini espalhou-se pelo Brasil, dando legitimidade ao Movimento Feminista pela Anistia, com tamanho sucesso e um grande número de novos adeptos. Em 1980 mudou-se o nome do movimento para Anistia e Liberdades Democráticas, um movimento marcado pelo vigor nacionalista.
Segundo as autoras Mirian e Moema, em 1977 foi instaurada uma CPI para investigar a situação da mulher no mercado de trabalho e demais atividades. Essa Comissão Parlamentar de Inquérito trouxe à tona fatos que eram de conhecimento de pequenos grupos. A exemplo, algumas questões que chocaram a sociedade como: "que a mulher recebia, no meio rural, apenas um quinto do salário pago ao homem por igual trabalho; que não era cumprida a legislação que obrigava empresas com mais de trinta trabalhadoras a manter berçários; que empresas estatais impediam o acesso à mulher em determinados setores e que tais impedimentos não tinham apoio legal; que mulheres grávidas eram despedidas sumariamente; que agências com verbas vindas do estrangeiro estavam promovendo a esterilização indiscriminada de mulheres; e inúmeras outras denúncias que foram feitas nos depoimentos."
A partir do ano de 1980, foram grandes as conquistas do Movimento Feminista, como conseqüência de todos os anos de luta. Em 1980 foi criado o programa TV Mulher na Rede Globo de televisão. Segundo as autoras, esse programa era um canal direto das feministas, no qual eram discutidas questões como decoração e cozinha. Em seguida surgiu a necessidade de se falar sobre o corpo, sobre a sexualidade e a liberdade. Segundo o relato de Moema e Mirian as expectadoras repassavam à apresentadora do programa, Marta Suplicy, muitas dúvidas a respeito da liberdade sexual e muitas curiosidades sobre o próprio corpo. Era perceptível na mulher a necessidade de uma libertação da sexualidade.
Um fato muito marcante para as feministas foi a morte de Ângela Diniz, em 1976, por Doca Street, que em 1979 foi absolvido. A indignação das feministas trouxe o movimento que criou o SOS Mulher. A partir daí houve uma proteção maior para as mulheres, inclusive para as que trabalhavam e sofriam explorações e chantagens sexuais por parte dos patrões.
A década de 80 foi bastante promissora para as feministas. Nas universidades a questão feminina se tornou objeto de estudo. Tamanha foi a importância do assunto que a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS) reservou um espaço anual para reuniões a partir de 1979. Em 1981 foi ratificada pelo governo brasileiro a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher, firmada pela ONU em 1967. Ficou acertado, nesta convenção entre os países signatários, o compromisso de eliminar todas as restrições contra a mulher trabalhadora. Algumas empresas e órgãos passam a aceitar a mulher como parte integrante do quadro de funcionários. São exemplos dessas empresas e órgãos a polícia civil e militar, a Academia Brasileira de Letras e a Petrobrás.
O ano de 1980 se caracterizou como um ano de crise para todos os setores políticos e econômicos no Brasil, inclusive para o Movimento Feminista. É clara a desmobilização política e a retração de todos os grupos sociais organizados, apesar das mobilizações pela Constituinte e pelas eleições diretas. Como podemos ver, o Movimento Feminista não escapa da reestruturação a qual todo o contexto social está submetido no país. Nesse momento histórico o Movimento Feminista fica difuso e não se concentra em um único grupo. Com a democratização as mulheres passam a trabalhar em vários grupos não governamentais, e não há mais uma unificação da causa feminista. Com essa dissolução das organizações feministas foram criados os fóruns, dentre eles um dos mais importantes o Fórum Feminista do Rio de Janeiro, que passaram a se reunir regularmente a partir de 1985.
A partir de 1980, também se torna primordial entre os discursos políticos uma definição da situação da mulher. Em 1983 através de decretos oficiais criou-se o Conselho Estadual da Condição Feminina de São Paulo e em 1985 o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Foi nesse ano também que, as mulheres de vários partidos uniram-se e de mãos dadas ocuparam 26 cadeiras como deputadas constituintes, dando uma representatividade maior e mais significativa aos direitos da mulher.
Diante de tamanha luta por reconhecimento político-profissional e pela conquista do direito ao voto era inevitável o surgimento do questionamento, entre as mulheres e, por conseqüência, entre os homens, a respeito da liberdade sexual. Todo ser humano tem seus sonhos e seus objetivos, isso lhe impulsiona ao dia seguinte. São desses sonhos e objetivos que vivem também os partidos políticos e os movimentos sociais, dentre os quais encontra-se o movimento feminista. Realiza-se hoje o sonho de várias décadas e, tendo passado o momento prazeroso da conquista, outro sonho se faz presente no momento seguinte, outro objetivo torna-se impaciente e o promove ao dia seguinte. Assim o movimento feminista se lançou em busca da livre sexualidade e da liberdade sexual. O movimento feminista, talvez por seu romantismo e autoconfiança no momento das grandes realizações, tenha dado a impressão de menor seriedade. Muitas feministas conservadoras tinham medo de que a luta pela liberdade sexual se tornasse uma busca pela igualdade em relação à ‘promiscuidade masculina’. O que desabona o Movimento Feminista, ou o que o torna menos convicto e legítimo em seus objetivos, é uma má interpretação do que foi o movimento feminista. Algumas mulheres se dizem feministas para conseguirem uma legitimidade das suas atitudes, que tendem a uma tentativa de superação de gênero.
O Movimento Feminista garante hoje à mulher um trabalho mais igualitário e um convívio social mais justo e pacífico. Por tudo que vimos, é inegável a seriedade e a importância do Movimento Feminista para as relações e atividades atuais. Mesmo assim, 20 anos Vinte anos depois das grandes mobilizações, algumas feministas admitem existir alguns equívocos do movimento. A tentativa das mulheres de encontrar o seu espaço sugeriu muitas vezes que se ocupasse o lugar do masculino ou se deixasse a feminilidade de lado. A conscientização se dá hoje no sentido de que as mulheres percebam que para ocupar o seu espaço não é necessário deixar de ser feminina, e vejam a possibilidade de transformar o espaço que era masculino em um espaço que abrace ambos os gêneros. Todos esses anos trouxeram grandes mudanças para as mulheres. Muitas coisas foram conquistadas e a ideologia do discurso feminista se transformou. O fato é que vinte anos depois não é possível dizer que somente as mulheres se transformaram e cresceram, ou não, com todas essas conquistas. É preciso admitir as grandes mudanças pelas quais os homens passaram com os embates feministas.
A tentativa de salvar o pensamento e a ideologia do movimento feminista não é vã, nem mesmo a tentativa de encontrar o lugar da mulher ao longo da história deve ser considerada inválida. Embora ainda sofra-se discriminações por falar sobre o assunto, não se pode deixar de fazê-lo.
Sandra Nunes,academica de Filosofia, Unijui-RS

Feminismo e suas formas

O nome "feminismo" sugere uma ideologia singular, mas em realidade o movimento tem vários sub-grupos. De acordo com precedentes históricos, com a situação legal das mulheres em alguns países, e com outros fatores, a ideologia feminista foi direcionada para diferentes objetivos. Como resultado, existem muitos tipos de feminismo.
Há um tipo de feminismo chamado de feminismo radical que considera a concepção patriarcal da sociedade como causa de seus mais sérios problemas. Essa forma de feminismo foi popular na chamada segunda onda, mas hoje não tem muita força. Pela radicalidade e força aparente desse tipo de feminismo, muitos ainda associam o termo "feminismo" somente às idéias do feminismo radical. Alguns acreditam que é inútil buscar uma generalização universal do conceito de mulher (que é parte do feminismo radical), e que as mulheres de outros países jamais chegaram a experimentar o mulher que experimentam aquelas dos países ocidentais. A crítica diz que as mulheres de países de outras partes do mundo encaram a opressão não como causa da discriminação de gênero, e sim como discriminação social e econômica.
Algumas feministas radicais clamam pelo separatismo completo entre homem e mulher, na sociedade e na cultura. Outros ainda questionam o conceito real de homem e mulher. Dizem alguns que os papéis atribuídos aos gêneros, a identidade dos gêneros e a sexualidade são apenas padrões sociais. (Veja também heteronormatividade.) Para esses feministas, o feminismo é a libertação não só da mulher, como também do homem; a libertação da humanidade em geral.
Um movimento que tem suas origens no feminismo radical é o feminismo descontrutivista, que acredita ser o sexo (tanto no sentido biológico quanto social) uma construção social, que deve ser rejeitada enquanto unidade de classificação. Para esse tipo de feminismo, o paradigma de dois sexos deve ser substiuído por outro, que considere diversas sexualidades.
Outros grupos feministas acreditam que existem outros problemas sociais separados ou anteriores ao patriarcalismo (como o racismo ou a disparidade econômica). Vêem o feminismo como um movimento de liberação que se relaciona com muitos outros.
Alguns tipos de feminismo:
anarca-feminismo
ecofeminismo
feminismo cultural
feminismo descontrutivista
feminismo de gênero
feminismo espiritual
feminismo francês
feminismo pop
feminismo liberal
feminismo libertário ou individualista
feminismo mágico
feminismo materialista
feminismo marxista
feminismo radical
feminismo de libertação sexual
feminismo separatista
feminismo terceiro-mundista
transfeminismo
Alguns atos, concepções ou pessoas podem ser descritas como proto-feminismo ou pós-feminismo.
Embora muitos líderes do feminismo tenham sido mulheres, nem todos os feministas são mulheres e nem todas as mulheres são feministas. Há muita discussão sobre a participação de homens no movimento feminista. Alguns feministas dizem que os homens devem tomar partido nos movimentos, e mesmo na liderança dos mesmos — pois a tendência socialmente construída do homem em agir agressivamente em busca de poder ajudaria o movimento. Isso faria do feminismo um movimento controlado por homens, o que discorda do ideal de representação da mulher no poder.
Na maioria das vezes são aceitas e buscadas as colaborações de homens para o movimento feminista. Esses homens podem ser descritos como "pró-feministas", uma vez que parece inadequado, para certas feministas, descrevê-los também como "feministas".
O feminismo encontra bastante limitação fora do ocidente, onde esteve restrito durante o século XX. Os movimentos feministas esperam que suas ações e conquistas ganhem espaço em todo o mundo durante o século XXI.

Relações com outros movimentos

A maioria dos grupos feministas adopta uma visão holística quanto à política — o que concordaria com a frase de Martin Luther King, "Uma injustiça em algum lugar é uma injustiça em todo lugar". Seguindo a linha dessa frase, alguns feministas costumam apoiar outros movimentos como o movimentos dos direitos cívicos e o movimento dos direitos homossexuais. Muitas feministas negras participam também do movimento negro, e criticam o feminismo por ser ele dominado por mulheres brancas; argumentam que os problemas enfrentados pela mulher negra são ainda piores em razão do preconceito racial somado ao preconceito de género. Essa idéia é a chave do feminismo pós-colonial. Muitas mulheres negras dos EUA preferem o termo womanism (algo como mulherismo) em detrimento do tradicional feminism.
Entretanto, feministas são geralmente precavidos a respeito do movimento transexual, porque questionam a tradicional distinção entre homem e mulher. Mulheres transexuais são quase sempre excluídas de reuniões fechadas à mulheres e eventos feministas, e são rejeitadas por algumas feministas que dizem que ninguém que nasceu homem poderá realmente entender a opressão que a mulher enfrenta. Por outro lado, mulheres transexuais argumentam que enfrentam discriminação semelhante, e inclusive lutam a respeito de direitos legais que não lhes são assegurados; e que a discriminação contra pessoas de géneros diferrentes não é nada mais do que outra face do heterosexismo e patriarcalismo.

Efeitos do feminismo no Ocidente

O feminismo foi responsável por várias mudanças nas sociedades ocidentais, inclusive:
o voto feminino
crescimento das oportunidades de trabalho para mulheres, com salários iguais aos dos homens
direito de pedir divórcio
controle sobre o próprio corpo em questões de saúde, inclusive quanto ao uso de preservativos e ao aborto
etc
Algumas feministas dizem que muito falta a ser conquista nessas frentes, e as feministas do terceiro mundo muito provavelmente não tomariam essas conquistas por reais. A medida que a sociedade ocidental aceita os princípios feministas, exigências que antes pareciam absurdas se tornam convencionais e inquestionáveis: hoje em dia poucas pessoas questionariam o direito ao voto ou à propriedade de terras para mulheres, direitos que pareciam insensatos há 100 anos.
Em alguns casos (notadamente em relação aos salários iguais pela mesma função), apesar dos avanços, o movimento feminista ainda precisa batalhar para alcançar os objetivos completos.
Feministas propõe frequentemente o uso de uma linguagem não sexista, que utiliza, por exemplo, "senhorita" tanto para mulheres casadas como para mulheres solteiras. Também procuram criticar o uso de palavras que derivam do género masculino para descrever coisas relativas tanto à mulher quanto ao homem (por exemplo, homem para designar o ser humano; ou o uso de pronomes masculinos no plural, quando em referência a grupo de homens e mulheres — eles). Isso pode ser visto como uma tentativa de eliminar o sexismo de algumas línguas, pois algumas feministas acreditam que a linguagem afeta diretamente a percepção da realidade (veja hipótese de Sapir-Whorf). Existem línguas que possuem pronomes masculinos, femininos e neutros; nos locais onde a língua não impõe uma preferência por género, a discussão sobre linguagem sexista tende a ser minimizada. Mas uma vez que o idioma inglês (que é sexista) se torna a cada dia uma língua universal, o debate sobre linguagem sexista adquire importância.

Efeitos na educação moral

Aqueles que se opõe ao feminism o dizem que a busca da mulher por poder externo, aparente, em oposição à força interior no sentido de afetar a ética e os valores de outras pessoas, deixou um vácuo na área da educação moral, área em que tradicionalmente a mulher tinha influência. Algumas feministas argumentam que a educação, incluindo a educação moral, não devem ser encarada como responsabilidade exclusiva da mulher. Paradoxalmente, alguns dizem que a educação dada em casa pelas mães é uma maneira de agir feminista. Esses argumentos são muito discutidos, no que tange a responsabilidade do ensino de valores sociais e compaixão para as crianças.

Efeitos nas relações heterossexuais

O feminismo certamente teve efeitos nas relações heterossexuais, no Ocidente e em outros locais onde se fez presente. Conquanto esses efeitos foram em geral encarados como positivos, algumas consequências negativas devem ser apontadas.
Em alguns relacionamentos, houve uma mudança sensível na relação entre o homem e a mulher. Ambos tiveram de se adaptar a novas situações, não sem embaraços e tropeços. A mulher começou a se conscientizar de que tinhas novas oportunidades, mas ao mesmo tempo sofreu com a necessidade de tentar equilibrar uma carreira bem-sucedida e a vida familiar ("desfrutar de tudo"). O ônus da criação dos filhos não pesa mais somente para a mulher, e do homem passou a se exigir o desempenho de algumas tarefas na educação das crianças. Muitas feministas adeptas do socialismo argumentam que na verdade o problema se encontra na omissão do Estado quanto a educação dos futuros cidadãos; por exemplo, através de creches. Argumentam que em muitas sociedades do passado o papel de cuidar das crianças era muito mais do Estado do que dos pais. Mas assistência por parte do Estado existe em alguns lugares, e mesmo assim nesses lugares enfrentam dificuldades em conciliar diversas actividades.
O homem em alguns casos sentiu uma perda de poder e identidade, e tentou lutar para readquirir alguns privilégios (ou adquirir novos).
Quanto ao comportamento sexual, as mulheres passaram a ter mais controle sobre seus corpos, e passaram a vivenciar o sexo com mais liberdade do que antes lhes era permitido. A consequência dessa revolução sexual é vista como positiva, uma vez que homens e mulheres passaram a poder ter experiências sexuais mais livres e compartilhadas. Entretanto algumas feministas argumentam que a revolução sexual foi benéfica apenas para os homens.
O casamento também sofreu abalos em razão do feminismo. Muitas mulheres hoje pensam que o casamento é uma instituição que serve apenas para oprimí-las, preferindo a coabitação com os parceiros. (Algumas feministas discordam disso.)

Efeitos na religião

O feminismo teve grande efeitos em variados aspectos da religião. Nas correntes liberais do protestantismo, a mulher agora pode ser ordenada clériga, e em algumas correntes do judaísmo a mulher pode ser ordenada rabina e cantor . Nesses grupos católicos e judaicos a mulher adquiriu certa igualdade perante o homem, na capacidade de obter posições de poder. Essas mudanças enfretam resistência na igreja católica e no Islão. Toda a tradição do Islão proibe as mulheres muçulmanas de ocupar posições religiosas e de estudo da religião. Movimentos liberais dentro do islamismo procuram trazer reformas ao Islão que permitam, por exemplo, a participação mais efetiva das mulheres. Já quanto a Igreja Católica, é notória sua tradição quanto ao abuso e discriminação contra as mulheres (veja por exemplo, o funcionamento do Convento das Madalenas); as mulheres católicas são proibidas de ascender na hierarquia religiosa, e se decidirem dedicar-se à religião só podem ser freiras.
O feminismo também foi importante na criação de novas formas de religião. Especialmente as religiões neopagãs enfatizam a importância de uma deusa ou divindade feminina, e questionam a sujeição da mulher nas religiões tradicionais. Certo ramo da Wicca conhecido como Wicca de Diana tem sua origem no feminismo radical. Próximo a Wicca, há o feminismo mágico, corrente que argumenta quanto a incompreensão dos homens para com aquilo que chamam de bruxas, ou seja, mulheres com conhecimento científico ou médico superior. A auto-identificação como bruxas revela a posição dessas feministas em recuperar conhecimentos perdidos em razão da perseguição e eliminação das bruxas no passado.
O feminismo também discute o papel das mulheres na mitologia das religiões tradicionais. Especialmente no caso de Maria, é discutida a contradição de se acreditar que foi mãe e virgem, o que levaria muitas mulheres a aspirar um ideal impossível, e portanto teria consequências negativas em relação à sexualidade feminina.

Críticas ao feminismo

O movimento feminista atraiu atenção por sua capacidade de alterar a sociedade no Ocidente. Embora o feminismo seja geralmente aceito, existem vozes discordantes.
Além das críticas apontadas na seção anterior, outras tantas são dirigidas ao movimento. Alguns críticos (tanto homens quanto mulheres) pensam que as feministas estão efetivamente pregando o ódio contra os homens, ou tentando mostrar a inferioridade do homem; argumentam que se as palavras "homem" e "mulher" forem substituídas por "negro" e "branco", os textos feministas podem se transformar naturalmente em manifestos racistas.
Outros dizem que, por conta do feminismo, os homens começam a ser oprimidos. Embora as feministas neguem a veracidade dessa crítica, aqueles que a defendem dizem que em países como os EUA a taxa de suicídios entre homens é maior do que entre mulheres, levando a conclusão de que os homens estão sendo oprimidos. Desde a década de 1970, a razão entre os suicídios de homens para os suicídios de mulheres tem aumentado. Mas podem haver várias causas para esse aumento, que não necessariamente uma sociedade opressora para os homens.
Alguns grupos conservadores vêem o feminismo como elemento de destruição dos papéis tradicionais dos géneros, nomeadamente quando o pai e a mãe são trabalhadores bem sucedidos e ocupados — não sobrando ninguém para cuidar bem das crianças. As feministas geralmente respondem que os papéis tradicionais de género servem para silenciar e oprimir a mulher.
Certos homens argumentam que as mudanças sociais e legais acarretadas pelo feminismo foram muito longe, e agora afetam negativamente ao homem a às crianças. Por exemplo, muitos homens acreditam que nas dispustas de custódia após um divórcio, a justiça tende a entregar os filhos para a custódia da mãe. As feministas do terceiro mundo são geralmente mais receptivas a esse tipo de idéia, aceitando que a sociedade patriarcal está oprimindo tanto ao homem quanto à mulher.
Também há críticas quanto a existência da barreira que impede as mulheres de ocupar postos de chefia: alguns homens dizem que muitas mulheres são promovidas não por méritos, mas para melhorar a imagem das empresas ("não somos machistas"). Essa questão se relaciona com a promoção e o emprego de negros não qualificados para funções, atos também realizados para fins de propaganda, em muitos casos (veja: acção afirmativa). O argumento apresentado pelas feminista é que medidas desse tipo (a promoção realizada não por mérito) são necessárias para ajustar a sociedade, refém da discriminação de séculos.
Em casos de assédio sexual também se critica a posição pró-mulher que sempre envolve os casos. Normalmente é dado pouco crédito ao homem acusado de assédio sexual, e mesmo que a situação não tenha sido constrangedora, fica difícil para ele provar que não cometeu o assédio. Tratar-se-ia de um preconceito indireto, e de uma situação em que a mulher teria quase um poder absoluto. Além disso, quando o homem é vítima de assédio sexual, recebe pouco crédito e é geralmente motivo de piadas e zombaria.
Feministas pós-coloniais criticam as formas ocidentais de feminismo, notadamente o feminismo radical e sua tentativa de universalizar a experiência de ser mulher. Os pós-coloniais argumentam que o conceito generalizado e global de que é ser mulher geralmente é baseado em padrões de classe média e de mulheres brancas, e logo não é capaz de lidar com experiências de mulheres para as quais o preconceito de género é apenas secundário ou terciário, em relação ao preconceito racial e de classe social. Hoje em dia, muitas moças associam a palavra "feminismo" ao feminismo radical, o que as afasta do engajamento na luta feminista.

O feminismo hoje

Muitas feministas acreditam que a discriminação contra mulheres ainda existe tanto em países subdesenvolvidos quanto em países desenvolvidos. O quanto de discriminação e a dimensão do problema são questões abertas.
Existem muitas idéias no movimento a respeito da severidade dos problemas atuais, sua essência e como enfrentá-los. Em posições extremas encontram-se certas feministas radicais que argumentam que o mundo poderia ser muito melhor se houvessem poucos homens. Algumas feministas afastam-se das correntes principais do movimento, como Camille Paglia; se afirmam feministas mas acusam o feminismo de ser, por vezes, uma forma de preconceito contra o homem. (Há um grande número de feministas que questiona o rótulo "feminista", aplicado a essas dissidentes.)
Muitas feministas, no entanto, também questionam o uso da palavra "feminismo" para se referir a atitudes que propagam a violência contra qualquer género ou para grupos que não reconhecem uma igualdade entre os sexos. Algumas feministas dizem que o feminismo pode ser apenas uma visão da "mulher como povo". Posições que se baseiam na separação dos sexos são consideradas, para esses grupos, sexistas ao invés de feministas.
Há feministas que fazem questão de assumir diferenças entre os sexos — ao contrário da corrente principal que sugere que homem e mulher são iguais. A ciência moderna não tem um parecer claro sobre a extensão das diferenças entre homem e mulher, além dos aspectos físicos (anatómicos, genéticos, hormonais). Essas feministas sustentam que, embora os sexos sejam diferentes, nenhuma diferença deve servir de base à discriminação.
O debate sobre questões feministas no Ocidente não deve, no entanto, distrair o movimento feminista de seu principal objectivo no século XXI: promover maiores direitos para as mulheres nas sociedades do Oriente.

Estatísticas mundiais

Apesar dos avanços feitos pelas mulheres no que respeita à igualdade no mundo ocidental, há um longo caminho a percorrer para se chegar à igualdade, de acordo com as seguintes estatísticas:
As mulheres detêm apenas 1% da riqueza mundial, e ganham 10% das receitas mundiais, apesar de constituirem 49% da população.
Quando se considera a criação dos filhos e o trabalho doméstico, as mulheres trabalham mais do que os homens, quer no mundo industrializado, quer no mundo sub-desenvolvido (20% a mais no mundo industrializado, 30% no resto do mundo).
As mulheres estão sub-representadas em todos os corpos legislativos mundiais. Em 1985 a Finlândia detinha a maior percentagem de mulheres na legislatura nacional, com aproximadamente 32% (cf. NORRIS, P.. Women's Legislative Participation in Western Europe, West European Politics). Actualmente a Suécia tem o maior número, com 42%. A média mundial é apenas 9%.
Em média e a nível mundial, as mulheres ganham 30% menos do que os homens, mesmo quando têm o mesmo emprego.
Fonte: ttp://pt.wikipedia.org.br

 O processo histórico de consolidação dos movomentos sociopoíticos que lutam pela defesa e ampliação dos direitos da mulher encontra, como pode-se observar no desenrolar dos estudos afins, bastante limitação fora do ocidente, onde esteve restrito durante o século XX. Os movimentos feministas esperam que suas ações e conquistas ganhem espaço em todo o mundo durante o século XXI. Isso abrangendo as mais diversas áreas e setores da sociedade, de forma a reverter as estatísticas mundiais a fim de percorrer o longo caminho da igualdade e da apropriação  e consolidação dos direitos.
Por: Irene Cristina dos Santos Costa, Grupo MSul04 "Preformance Negra"